2 de jan de 2014

Carta ao meu pai










          Nós podemos recomeçar? Voltar para o dia em que sai da maternidade e era pouco maior que a sua mão. Quando comecei a andar e você não estava lá para impedir minha queda. Voltar para o dia em que disse minha primeira palavra e você sequer sabe qual foi. Impedir as inúmeras vezes em que você prometeu ir me ver e eu ficava esperando no portão de casa, com um sorriso bobo. Evitar todas as vezes em que me ignorou.

Poderíamos voltar ao meu primeiro dia de aula, eternizado por uma foto que está na sua sala de estar desde então. Eu poderia chorar e te pedir para ficar. Mesmo sabendo que você não ficaria. Você nunca ficou.

Ah, poderíamos voltar ao dia em que ganhei a minha primeira bicicleta e você poderia ensinar como andar nela, apesar de, provavelmente, gerar uma queda já que sou uma desastrada. Eu iria chorar na hora, mas hoje recordaríamos do momento e riríamos.

Pai, eu podia te perdoar por não estar ao meu lado em tantos momentos cruciais da minha vida, nós poderíamos recomeçar. Às vezes, acho que é tarde demais para nós. Às vezes, penso em desistir. Afinal, em dezesseis, quase dezessete, anos você não se interessou, por que justo agora teria uma tomada de consciência? Mas eu sou sua filha, e por mais que eu tente, eu não consigo não te amar,  e quem ama, insisti. 

Eu te vejo aí, vivendo num mundo paralelo construído por si mesmo. Você criou tantas muralhas ao seu redor, quando derrubo uma, surgem duas. Eu sei que amar nos torna vulneráveis e que você não gosta de se sentir assim, mas a vida sem amor é triste, fria e escura. 

Eu sei que, no fundo, você gosta de mim, mas tem um jeito torto de amar. Eu não posso mudar isso, eu não posso mudar você. E mesmo se eu pudesse, não mudaria, pois te amo exatamente assim: teimoso, chato, esquisito.

Nós não podemos voltar no tempo e eu não posso esquecer o que já passou, mas ainda dá tempo de tentar de novo. Você pode me abraçar forte quando eu passar no vestibular, ter ciumes quando te apresentar a algum namorado, e me apoiar quando eu realizar meu sonho de morar do outro lado do oceano. Ainda há muito para se fazer, falar, ainda há muito para se viver, então te pergunto: pai, vamos recomeçar?

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